Ártico

segunda-feira, 19 de março de 2012

KONY 2012: NÃO SE PRESTE A WEB-OTÁRIO


Vamos aprender uma lição sobre os perigos da web e não agir de forma impulsiva, irresponsável e acabar sendo usados/manipulados como idiotas? Dia 5/março “entrou em cartaz” na web o filme de quase 30 minutos “KONY 2012”. Em pouco tempo ele viralizou e atingiu 100 milhões de visualizações, por pessoas normais como eu e você até celebridades engajadas e formadoras de opinião, como Oprah, Clooney e Angelina, espalhando-se pelas redes sociais e tweets.


O filme é uma chamada-geral para uma missão humanitária: levar ao Tribunal Penal Internacional o seu “procurado nr 1”, Joseph Kony, fascínora ugandense que rapta e recruta crianças para seu movimento guerrilheiro LRA, escraviza e estupra meninas, mutila dissidentes e mata gente. A idéia é: as pessoas só podem se mobilizar se tiverem informação, portanto é preciso tornar Kony “o homem mais famoso do mundo”. Só assim ele será reconhecido, odiado, acuado, capturado e punido. O deadline: dezembro/2012.

A iniciativa foi do cineasta Americano Jason Russell, que em 2004 conheceu na África essa triste realidade e resolveu criar a ONG Invisible Children, que começou uma cruzada para divulgar, engajar voluntários e angariar fundos (vendendo um Kit com posters, camisetas e pulseirinhas a U$ 30 para turbinar o marketing dos militantes). Até agora já obteve U$ 13,7 milhões. Também pressionou o governo Obama a mandar ajuda para o exército ugandense se equipar tecnicamente nessa luta – os EUA até agora só mandaram “conselheiros” para treinar os soldados.

Tudo certo, não fosse o poder de transparência da web, onde logo começaram a aparecer as outras versoes da história: 1) Há pelo menos 6 anos Kony já foi expulso de Uganda e seu exército, fracionado entre Sudão e Congo, encontra-se enfraquecido, com uns 400 “soldados” e não os 30mil descritos no video; 2) O governo/exército de Uganda não é flor que se cheire, portanto pra que os EUA e a ONG vão injetar dinheiro para equipá-lo, se o fascínora já nem está no país?; 3) Não existem hoje mais crianças com medo de sequestro fugidas de suas casas, aglomeradas em galpões nem mutiladas como mostra o filme; 4) Os ugandenses acham o discurso do filme tendencioso, mal informado, desprezando várias iniciativas sociais de ONGs locais e pintando o velho quadro dos “salvadores brancos dos impotentes negros” (há dezenas de filmes de cidadãos irados no YouTube); 5) Apenas 37% dos recursos da Invisible Child foram destinados à causa, segundo instituições que fiscalizam o 3o Setor e até   o grupo Anonymous – e a ONG é incapaz de abrir seus livros e prestar contas do dinheiro, tendo gasto a maior parte dele em viagens e produção de filmes.

Portanto, alguns aprendizados: 1) As pessoas estão dispostas a se engajar pra valer quando a causa é boa; 2) Um video viraliza mais quando tem alto componente emocional; 3) Responsabilidade social/ética requerem pensamento holístico, conhecer o ângulo de vários stakeholders diferentes; 4) se você pretende passar adiante alguma denúncia na web, trate de se informar um pouco mais antes, para não cometer injustiças e causar um mal maior. Ao invés de uma reação apaixonada e precipitada, mergulhe melhor no tema para não acabar sendo, afinal, um grande otário a serviço de causas com mérito, mas mal conduzidas. (para outros exemplos, veja posts sobre Belo Monte e ACTA/SOPA neste blog). 

2 comentários:

Cristóvão Pereira disse...

Eu vi as críticas antes de ver o vídeo do Jason Russell sobre o Joseph Kony, que eu nem sabia que existia. Venho há mais de três dias ouvindo e vendo as críticas e acho que quem está criticando não viu o vídeo do Jason Russell, ou se viu, não prestou atenção.
Achei brilhante o vídeo e a intenção, em traçar uma estratégia para parar um criminoso. Assistindo o vídeo não consegui ver nada que pudesse criticar o Jason Russell, muito pelo contrário. Apenas estou convencido que as críticas são de quem não assistiu o vídeo ou ficou com inveja do marketing viral que foi brilhante. Vou escrever no meu blog a respeito.

Patricia de Sá disse...

Oi Cristóvão,
Eu já postei comentário no seu blog a respeito do post sobre KONY que vc colocou lá, conforme menciona. Mas repito aqui para os leitores do meu blog que eventualmente se engajem na discussão.

Acho a iniciativa e a estratégia do Russell brilhantes, que o Kony tem mesmo que ser caçado e punido, que as pessoas precisam se mobilizar. O "surto" do cineasta eu nem menciono no meu post, porque acho irrelevante e muito mais consequência de alto stress gerado pela polêmica. Até aí tudo perfeito.

O problema é que, assistindo a outros filmes de ugandenses muito bem educados, articulados e conscientes na web, é possível ver outros pontos de vista com muito mérito, que se opõem a parte do que o video coloca; também acho que uma ONG que tem o poder de arrecadar quase U$ 14 milhões em doações deve saber que tem por obrigação ser transparente e prestar contas - o que a Invisible Child não foi capaz de fazer até agora, segundo mais de uma instituição que fiscaliza/monitora 3o Setor; que a média no setor é de investir 90% das doações nas causas, e a I.C. só botou 37%; outro problema é equipar militarmente um exército de ética duvidosa como de Uganda, para caçar um guerrilheiro que sabidamente nem está mais no país. Uma temeridade, no mínimo, que pode vir a causar um mal maior. Questiono também a velha mentalidade colonialista, de tratar os africanos como incapazes.

Continuo achando que o filme é um maravilhoso exemplo do poder da mídia digital e do empoderamento da sociedade diante de governos e empresas. Ele ensina uma lição preciosa de marketing. Mas pelo rigor da ética e responsabilidade, todos - nós internautas e gestores de ONGs - precisamos nos habituar a pensamento holístico, enxergar "the big picture" e as consequências de nossas ações.

Em tempo: vi o filme inteiro e no mínimo outros 6 filmes no YouTube, li uns 3 artigos e já estive na África 5 vezes. Não podemos simplificar a questão à "polêmica vazia" de gente invejosa.